quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Não me mates que sou a tua mãe

Já não é. Pintamos sobre o já pintado num gesto pseudo irreverente, desconhecendo a nossa prisão do passado.
Matéria… cor, forma gestual, intenção animal, desobediência mental… linha, pé, desconcerto, desconexo, pequenez, subtil, vento, transparência, opaco. Expectante entre o negro que nem sempre é negro?
Haverá algo mais para perceber? E para não perceber?
Considerações sobre o conceptual (autor desconhecido)


Arrepiou-se quando a viu. Gelou! Eriçaram-se-lhe quantos pelos tinha no corpo. Por segundos ficou ali pregado ao leito seco do ribeiro. Sem saber para onde fugir. De um lado, a margem íngreme e impenetrável pela barreira de silvas que contavam já uma boa meia dúzia de anos sem desbaste; do outro, a parede de granito com mais de três metros de altura que delimitava o pomar e a vinha, dando-lhe segurança por alturas dos invernos rigorosos de outros tempos, em que as águas revoltadas do ribeiro corriam por mais de três meses a fio. O leito, seco desde Fevereiro passado pelo inverno muito curto, deixara crescer com pouca desenvoltura as urtigas cavalares, já em decadência neste quente mês de Junho. De onde em onde cresciam, também, desajeitados rebentos dos salgueiros que tinham sido cortados no último verão. Era à sombra destes que ela estava estirada a todo o comprimento.
Deleitando-se na fresquidão do solo lodoso, sombrio e húmido. Quando deu com os olhos nela, teve a sensação de que estava ali há muito a vigiar-lhe os movimentos. Passado o primeiro instante de pânico, o seu primeiro impulso foi levar as mãos à sachola, que depositara no chão, e levantá-la à altura da cabeça para desfechar o golpe fatal. Se bem pensou melhor o fez, mas ficou-se apenas pelo meio gesto. Negra, com manchas hexagonais, sobre a pele, de uma cor indefinida, entre o verde e o alaranjado, qualquer cor próxima de um amarelo-torrado (que o pretendia ser, embora não o sendo), andaria pelos dois metros e tal de comprido (para cima, que não para baixo). O diâmetro rondaria, sem exagero, uns bons seis centímetros… uma pequena jiboia, poder-se-ia quase dizer, retendo ainda na lembrança muitas semelhantes das que vira nas matas de África. Semelhantes no tamanho, que não na cor. Aquelas manchas hexagonais, distribuídas ao longo do corpo, eram qualquer coisa parecida, na cor e na irregularidade (salvo as devidas proporções), com as manchas que se estampam no corpo humano a denunciar uma irremediável velhice.
Levando em conta o metro e meio do cabo da sachola, calculou a distância necessária entre si e o ponto vital do réptil, logo abaixo da cabeça, onde iria desferir o golpe fatal que lhe fracturaria a espinha. Viu-lhe os olhos. Fixos nele. Uns olhos diferentes dos de qualquer réptil, cujo instinto é, na presença de qualquer outro ser animal, fugir, ou, pelo menos, pôr-se à defesa, para defender o seu território. Mas esta cobra, diferente em tudo das demais (até na cor), tinha olhos dóceis capazes de desmobilizar quem, como ele, tinha horror a cobras e só se sentia tranquilo quando lhes infligia a morte. Era um olhar de súplica. De ser humano, (parecia…).

Naquele dia, uma das tarefas que impusera a si próprio, era desbastar, uma vez mais, os rebentos bravos das videiras (o chamado desladroar da vinha). E aquela roriz que se infiltrara, sabe-se lá por obras e graças de quem, a mais de meio metro do nível da parede que delimitava o pomar, do leito, agora seco, do ribeiro, obrigava-o a que se ajoelhasse e que, nesta posição, se debruçasse sobre ela para efectuar tal trabalho de desbaste. Carregadinha de uvas, este ano, merecia bem tal sacrifício, que nos anteriores até passava despercebida. Teve que se alongar, um pouco mais, para cortar o último ladrão da videira… foi quando a tesoura da poda lhe caiu da mão, indo mergulhar, a mais de três metros de si, na profusão do verde das urtigas que cresciam por entre tufos, já desmaiados, de erva de S. Roberto.
- Raios… logo agora que estava quase a acabar… se não fosse cá por coisas ficavas aí num sono eterno entre as urtigas... - disse ele, entre dentes, como se pretendesse que os seus botões o não ouvissem.
A custo, levantou-se, que as suas ancilosadas articulações se negavam, há muito, a movimentos rápidos. Com as costas, de uma e outra mão, limpou o suor que lhe corria na testa. Por insuficiente, puxou a fralda da camisa, ensopada nas costas, para fora das calças e levou-a ao rosto. Agora sim… conseguiu que o suor, que lhe começava a fazer ardor nos olhos, secasse. E lá se dispôs ele a ir até ao portal e descer ao leito do ribeiro… por entre pedras escorregadias, onde a lama do último inverno se agarrara seca, mas falsa, que ao menor descuido se tornava em pó, afastando do rosto as vergônteas dos salgueiros, lá foi tacteando, por aqui e por ali, certificando-se, antes, com a sachola, da firmeza e segurança do terreno. Em certa medida, a finalidade era mais colocar em fuga qualquer réptil do que certificar-se da firmeza do terreno, que conhecia, como as palma das suas mãos, da sua solidez.
- Que se lixasse a tesoura se algum lagarto (daqueles enormes e verdes que no verão aparecem) lhe saltasse à frente.
E foi quando a viu. Ali, a escasso metro de si. Gelou. Ficou, por segundos (que lhe pareceram séculos), preso ao chão do leito seco do ribeiro. Depois, num movimento rápido, ergueu ao céu a sachola, enquanto recuava a medida certa, para o ataque e a defesa. Mediram-se, um ao outro, com os olhares. Ele, com repugnância ameaçadora e medo; ela, quieta, como que, estarrecida, à espera do golpe fatal, naquele olhar de mistério e súplica.
Ouviu (-lhe) uma voz, ténue, como se um queixume:
- Não me mates que sou a tua mãe.
E uma vez mais gelou. Petrificou. Estático. Imóvel. Ficou, por uma eternidade, colado ao leito lodoso do ribeiro. Secou-lhe a voz na garganta. Olhos marejados… e foi com eles toldados que a viu desaparecer, arrastando-se, a custo, por entre as urtigas que lhe fustigavam o corpo, para lá do manto sombrio formado pelo espesso das silvas impenetráveis e agrestes.

____ © Alvaro Giesta in "entre nós, CUMPLICIDADES", Calçada das Letras, 2015