Já não é. Pintamos sobre o já pintado
num gesto pseudo irreverente, desconhecendo a nossa prisão do passado.
Matéria… cor, forma gestual, intenção
animal, desobediência mental… linha, pé, desconcerto, desconexo, pequenez,
subtil, vento, transparência, opaco. Expectante entre o negro que nem sempre é
negro?
Haverá algo mais para perceber? E para
não perceber?
Considerações sobre o conceptual (autor desconhecido)
Arrepiou-se quando a viu. Gelou! Eriçaram-se-lhe quantos pelos
tinha no corpo. Por segundos ficou ali pregado ao leito seco do ribeiro. Sem
saber para onde fugir. De um lado, a margem íngreme e impenetrável pela
barreira de silvas que contavam já uma boa meia dúzia de anos sem desbaste; do
outro, a parede de granito com mais de três metros de altura que delimitava o
pomar e a vinha, dando-lhe segurança por alturas dos invernos rigorosos de
outros tempos, em que as águas revoltadas do ribeiro corriam por mais de três
meses a fio. O leito, seco desde Fevereiro passado pelo inverno muito curto,
deixara crescer com pouca desenvoltura as urtigas cavalares, já em decadência
neste quente mês de Junho. De onde em onde cresciam, também, desajeitados
rebentos dos salgueiros que tinham sido cortados no último verão. Era à sombra
destes que ela estava estirada a todo o comprimento.
Deleitando-se
na fresquidão do solo lodoso, sombrio e húmido. Quando deu com os olhos nela,
teve a sensação de que estava ali há muito a vigiar-lhe os movimentos. Passado
o primeiro instante de pânico, o seu primeiro impulso foi levar as mãos à sachola, que depositara no chão,
e levantá-la à altura da cabeça para desfechar o golpe fatal. Se bem pensou
melhor o fez, mas ficou-se apenas pelo meio gesto. Negra, com manchas
hexagonais, sobre a pele, de uma cor indefinida, entre o verde e o alaranjado,
qualquer cor próxima de um amarelo-torrado (que o pretendia ser, embora não o
sendo), andaria pelos dois metros e tal de comprido (para cima, que não para
baixo). O diâmetro rondaria, sem exagero, uns bons seis centímetros… uma
pequena jiboia, poder-se-ia quase dizer, retendo ainda na lembrança muitas
semelhantes das que vira nas matas de África. Semelhantes no tamanho, que não
na cor. Aquelas manchas hexagonais, distribuídas ao longo do corpo, eram
qualquer coisa parecida, na cor e na irregularidade (salvo as devidas
proporções), com as manchas que se estampam no corpo humano a denunciar uma
irremediável velhice.
Levando
em conta o metro e meio do cabo da sachola, calculou a distância necessária
entre si e o ponto vital do réptil, logo abaixo da cabeça, onde iria desferir o
golpe fatal que lhe fracturaria a espinha. Viu-lhe os olhos. Fixos nele. Uns
olhos diferentes dos de qualquer réptil, cujo instinto é, na presença de
qualquer outro ser animal, fugir, ou, pelo menos, pôr-se à defesa, para defender
o seu território. Mas esta cobra, diferente em tudo das demais (até na cor),
tinha olhos dóceis capazes de desmobilizar quem, como ele, tinha horror a
cobras e só se sentia tranquilo quando lhes infligia a morte. Era um olhar de
súplica. De ser humano, (parecia…).
Naquele dia, uma das tarefas que impusera a si próprio, era
desbastar, uma vez mais, os rebentos bravos das videiras (o chamado desladroar
da vinha). E aquela roriz que se infiltrara, sabe-se lá por obras e graças de
quem, a mais de meio metro do nível da parede que delimitava o pomar, do leito,
agora seco, do ribeiro, obrigava-o a que se ajoelhasse e que, nesta posição, se
debruçasse sobre ela para efectuar tal trabalho de desbaste. Carregadinha de
uvas, este ano, merecia bem tal sacrifício, que nos anteriores até passava
despercebida. Teve que se alongar, um pouco mais, para cortar o último ladrão
da videira… foi quando a tesoura da poda lhe caiu da mão, indo mergulhar, a
mais de três metros de si, na profusão do verde das urtigas que cresciam por
entre tufos, já desmaiados, de erva de S. Roberto.
- Raios… logo agora que estava quase a acabar… se não fosse
cá por coisas ficavas aí num sono eterno entre as urtigas... - disse ele, entre
dentes, como se pretendesse que os seus botões o não ouvissem.
A
custo, levantou-se, que as suas ancilosadas articulações se negavam, há muito,
a movimentos rápidos. Com as costas, de uma e outra mão, limpou o suor que lhe
corria na testa. Por insuficiente, puxou a fralda da camisa, ensopada nas
costas, para fora das calças e levou-a ao rosto. Agora sim… conseguiu que o
suor, que lhe começava a fazer ardor nos olhos, secasse. E lá se dispôs ele a
ir até ao portal e descer ao leito do ribeiro… por entre pedras escorregadias,
onde a lama do último inverno se agarrara seca, mas falsa, que ao menor
descuido se tornava em pó, afastando do rosto as vergônteas dos salgueiros, lá
foi tacteando, por aqui e por ali, certificando-se, antes, com a sachola, da firmeza e segurança do terreno. Em certa medida,
a finalidade era mais colocar em fuga qualquer réptil do que certificar-se da
firmeza do terreno, que conhecia, como as palma das suas mãos, da sua solidez.
- Que se lixasse a tesoura se algum lagarto (daqueles
enormes e verdes que no verão aparecem) lhe saltasse à frente.
E foi quando a viu. Ali, a escasso metro de si. Gelou.
Ficou, por segundos (que lhe pareceram séculos), preso ao chão do leito seco do
ribeiro. Depois, num movimento rápido, ergueu ao céu a sachola, enquanto
recuava a medida certa, para o ataque e a defesa. Mediram-se, um ao outro, com
os olhares. Ele, com repugnância ameaçadora e medo; ela, quieta, como que,
estarrecida, à espera do golpe fatal, naquele olhar de mistério e súplica.
Ouviu (-lhe) uma voz, ténue, como se um queixume:
- Não me mates que sou a tua mãe.
E uma vez mais gelou. Petrificou. Estático. Imóvel. Ficou,
por uma eternidade, colado ao leito lodoso do ribeiro. Secou-lhe a voz na
garganta. Olhos marejados… e foi com eles toldados que a viu desaparecer,
arrastando-se, a custo, por entre as urtigas que lhe fustigavam o corpo, para
lá do manto sombrio formado pelo espesso das silvas impenetráveis e agrestes.
____ © Alvaro Giesta in "entre nós, CUMPLICIDADES", Calçada das Letras, 2015

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